Márcia Lasmar
Prosperidade

82% das famílias brasileiras estão endividadas – cartão de crédito lidera as dívidas

Pesquisa da CNC mostra que 85,3% das famílias endividadas têm compromissos no cartão de crédito. Em média, dívidas já comprometem 29,5% do orçamento familiar.

O endividamento das famílias brasileiras atingiu um novo recorde. Em julho de 2026, 82% das famílias do país tinham algum tipo de dívida, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), divulgada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).

É o maior percentual já registrado pela pesquisa e o sexto mês consecutivo de recorde.

Em junho, 81,6% das famílias estavam endividadas. Em julho de 2025, eram 78,5%.

Os números ajudam a dimensionar quanto o crédito passou a fazer parte do orçamento doméstico brasileiro. A Peic considera compromissos como cartão de crédito, cheque especial, carnês, crédito consignado, empréstimos pessoais e prestações de imóveis e veículos.

A pesquisa é realizada mensalmente com cerca de 18 mil famílias em todo o país.

Mas um dado chama especialmente a atenção: o cartão de crédito aparece em 85,3% das famílias endividadas.

Depois dele vêm os carnês, presentes em 16,1% dos casos, e o crédito pessoal, com 13%. Também aparecem financiamento de casa (9,6%), financiamento de veículos (9%), crédito consignado (7,1%) e cheque especial (3,4%).

Os percentuais não precisam somar 100%, porque uma mesma família pode possuir mais de um tipo de dívida.

Estar endividado não significa estar inadimplente

Essa diferença é fundamental para compreender os números.

Uma família que compra um eletrodoméstico em dez parcelas no cartão, financia um automóvel ou possui um empréstimo está tecnicamente endividada, mesmo que pague rigorosamente todas as prestações em dia.

A inadimplência ocorre quando existem contas vencidas que não foram pagas.

Em julho, 29,8% das famílias brasileiras declararam ter dívidas em atraso, uma pequena redução em relação aos 29,9% registrados em junho.

Portanto, o recorde de 82% não significa que oito em cada dez famílias estejam com o “nome sujo”.

Significa que oito em cada dez possuem algum compromisso financeiro a vencer.

Ainda assim, existe outro número que merece atenção: as famílias endividadas comprometem, em média, 29,5% do orçamento com essas obrigações.

Isso significa que quase três de cada dez reais do orçamento dessas famílias já têm destino antes de serem utilizados para outras necessidades.

O cartão de crédito está no centro do endividamento

O cartão de crédito não é, por si só, um vilão.

Quando a fatura é paga integralmente e as compras estão previstas no orçamento, ele pode funcionar apenas como um meio de pagamento.

O problema começa quando o limite disponível passa a ser confundido com renda.

Uma compra de R$ 2.400 pode parecer cara.

Doze parcelas de R$ 200 parecem muito mais acessíveis.

Depois surge outra parcela de R$ 150.

Mais uma de R$ 89.

Outra de R$ 120.

Individualmente, todas parecem caber.

Mas as parcelas se acumulam e começam a comprometer a renda dos meses seguintes.

É assim que decisões aparentemente pequenas tomadas no passado passam a disputar espaço com o salário do presente.

E o cenário se torna ainda mais delicado quando a família não consegue pagar integralmente a fatura e precisa recorrer a modalidades de crédito mais caras.

O ambiente de juros elevados torna essa situação ainda mais preocupante. Em junho de 2026, a taxa média do crédito livre para pessoas físicas chegou a 64% ao ano, segundo dados do Banco Central.

O endividamento pesa mais entre as famílias de menor renda

A Peic também revela uma desigualdade importante.

Entre as famílias que recebem até três salários mínimos, 84,9% estavam endividadas em julho.

Nas famílias com renda superior a dez salários mínimos, o percentual era de 72%.

A diferença fica ainda maior quando observamos a inadimplência.

Entre as famílias de menor renda, 38,5% tinham contas atrasadas. Entre aquelas com renda superior a dez salários mínimos, eram 15,1%.

A explicação é relativamente simples: quanto menor a renda, menor a margem para absorver imprevistos.

Uma despesa médica, um problema no carro, uma redução de renda ou até mesmo o aumento de gastos essenciais pode desequilibrar completamente um orçamento que já funciona no limite.

Como saber se a dívida virou um problema?

Ter dívidas não significa necessariamente estar financeiramente desorganizado.

A pergunta mais importante é:

quanto da sua renda já pertence às parcelas?

Existem alguns sinais de alerta:

  • usar o cartão para completar despesas básicas do mês;
  • pagar apenas parte da fatura;
  • contratar um empréstimo para pagar outro;
  • atrasar contas essenciais para pagar parcelas;
  • não saber exatamente quanto deve;
  • comprometer renda futura continuamente com novas compras;
  • depender do limite do cartão ou do cheque especial para chegar ao fim do mês.

Quando isso acontece, o problema já não está apenas no tamanho da dívida.

Está na estrutura do orçamento.

Primeiro passo: descubra exatamente quanto você deve

Quando as dívidas se acumulam, existe uma tendência bastante humana de evitar os números.

A pessoa sabe que deve, mas não sabe exatamente quanto.

Não abre todas as faturas.

Não soma os empréstimos.

Não verifica os juros.

Não calcula quantos meses ainda faltam.

Só que não existe organização financeira sem realidade financeira.

Faça uma lista completa contendo:

  • credor;
  • saldo devedor;
  • valor da parcela;
  • número de parcelas restantes;
  • taxa de juros;
  • vencimento;
  • pagamentos atrasados.

Depois, some tudo.

O número pode ser desconfortável.

Mas existe uma diferença enorme entre pensar:

“Minha vida financeira está um caos.”

e saber:

“Eu devo R$ 18 mil e preciso construir uma estratégia para pagar.”

Quando o problema ganha número, ele também começa a ganhar solução.

Segundo passo: pare de criar novas dívidas

Imagine tentar esvaziar uma banheira enquanto a torneira continua aberta.

É exatamente o que acontece quando alguém tenta quitar dívidas enquanto continua gastando acima da renda.

Durante algum tempo, talvez seja necessário reduzir limites do cartão, suspender novas compras parceladas, rever assinaturas, diminuir despesas não essenciais e adiar alguns desejos.

Não como punição.

Como estratégia.

Antes de pagar mais rápido, é preciso impedir que a dívida continue crescendo.

Terceiro passo: ataque primeiro as dívidas mais caras

Nem toda dívida custa a mesma coisa.

Por isso, descubra quanto você está pagando de juros em cada uma.

Cartão, cheque especial e determinadas modalidades de crédito pessoal podem ter custos muito superiores aos de financiamentos de longo prazo.

Procure os credores.

Negocie.

Peça propostas para pagamento à vista e parcelado.

Compare o Custo Efetivo Total (CET), e não apenas o valor da prestação.

Em algumas situações, trocar uma dívida muito cara por outra de juros menores pode fazer sentido.

Mas há uma condição fundamental:

a nova dívida precisa substituir a antiga — e não se somar a ela.

Pegar um empréstimo para quitar o cartão e depois voltar a usar o limite como antes apenas reinicia o ciclo.

É necessário viver temporariamente um degrau abaixo

Essa é uma das partes mais difíceis da reorganização financeira.

Se uma parcela importante da renda já está comprometida com decisões tomadas no passado, talvez o padrão de consumo atual precise ser reduzido por algum tempo.

Menos compras.

Menos delivery.

Menos assinaturas.

Menos parcelamentos.

Talvez férias mais simples.

Talvez adiar a troca do carro.

Talvez continuar mais algum tempo com aquilo que ainda funciona.

Não significa viver em privação para sempre.

Significa abrir espaço no orçamento para recuperar aquilo que a dívida reduz: a liberdade de escolha.

Mas cortar despesas também tem limite

Nem todo problema financeiro se resolve economizando.

Quando o orçamento já foi reduzido ao necessário, é preciso trabalhar a outra parte da equação:

aumentar a renda.

Horas extras, trabalhos temporários, prestação de serviços, venda de objetos sem uso ou alguma atividade paralela podem acelerar a saída das dívidas.

O importante é que essa renda adicional tenha destino.

Se todo aumento de renda provocar imediatamente aumento do padrão de consumo, o problema continuará.

Depois da última dívida, construa uma reserva

Quitar a última parcela é uma conquista.

Mas não deveria ser o final da reorganização.

O próximo passo é construir uma reserva para imprevistos.

Sem ela, qualquer problema inesperado pode levar novamente ao cartão ou ao empréstimo.

A reserva cria uma distância importante entre o imprevisto e a dívida.

Só depois começa uma nova etapa: planejamento, investimentos e construção de patrimônio.

A matemática resolve a dívida. O comportamento impede que ela volte.

Existe ainda uma pergunta que nenhuma planilha consegue responder:

por que você gasta como gasta?

Algumas pessoas compram quando estão ansiosas.

Outras usam o consumo como recompensa.

Há quem aumente imediatamente o padrão de vida quando começa a ganhar mais.

Há quem tenha dificuldade de dizer não à família.

E existe quem sustente, por meio do crédito, um padrão de vida que a própria renda não consegue financiar.

Se o comportamento que produziu o endividamento continuar igual, é possível quitar as dívidas e voltar a acumulá-las alguns anos depois.

Por isso, educação financeira não é apenas matemática.

Também é comportamento.

Sair das dívidas é recuperar liberdade

Quando a vida financeira começa a entrar em ordem, algo muda aos poucos.

Uma parcela termina.

Depois outra.

A fatura diminui.

Parte do salário deixa de estar comprometida antes mesmo de chegar.

Surge uma reserva.

E, pouco a pouco, as escolhas voltam.

Você pode esperar para comprar.

Pode atravessar um imprevisto sem recorrer imediatamente ao crédito.

Pode planejar.

Pode dizer não.

Pode decidir para onde o seu dinheiro irá antes que os boletos decidam por você.

Talvez seja essa a parte mais importante de colocar as contas em ordem.

Sair das dívidas não é apenas recuperar dinheiro. É recuperar liberdade.

E prosperidade começa justamente aí: quando o dinheiro deixa de tirar a nossa paz e passa a ajudar a construir a vida que queremos viver.