Márcia Lasmar
Mente e Emoções

As memórias que escolhemos guardar também constroem o nosso futuro

Existe uma ideia muito interessante estudada pela Psicologia Positiva: nossas memórias não servem apenas para recordar o passado. Elas também influenciam a forma como enfrentamos o presente e imaginamos o futuro.

Quando pensamos em memória, normalmente lembramos de acontecimentos importantes da nossa vida. Mas o cérebro faz muito mais do que arquivar lembranças. Cada experiência vivida deixa uma marca emocional.

É por isso que duas pessoas podem passar pela mesma situação e guardar recordações completamente diferentes.

Uma escolhe lembrar da dor.

A outra escolhe lembrar da superação.

E essa escolha muda a maneira como cada uma enfrenta os próximos desafios.

A ciência mostra que recordar experiências positivas desperta novamente parte das emoções vividas naquele momento. Alegria, amor, gratidão, esperança e contentamento podem ser revividos quando uma lembrança é acessada de forma vívida. A Psicologia Positiva utiliza esse princípio para fortalecer recursos emocionais, criando “âncoras” capazes de ajudar as pessoas a enfrentar momentos difíceis com mais equilíbrio.

Isso não significa ignorar o sofrimento.

Muito menos fingir que a vida é perfeita.

Significa ensinar o cérebro a perceber que, ao lado das perdas, também existiram encontros, conquistas, afetos, aprendizados e momentos de felicidade.

A ansiedade costuma direcionar nossa atenção para tudo aquilo que pode dar errado. O cérebro passa a procurar ameaças o tempo inteiro, como um sistema de alerta permanentemente ligado.

Mas quando cultivamos deliberadamente memórias positivas, oferecemos ao cérebro uma evidência importante:

“Eu já enfrentei dificuldades antes. Já fui feliz. Já consegui superar momentos difíceis. Posso fazer isso novamente.”

Esse repertório emocional funciona como uma reserva de força interior.

Cada lembrança boa que revisitamos fortalece nossa capacidade de lidar com a incerteza, reduz o sentimento de ameaça constante e amplia nossa percepção de possibilidades.

Talvez por isso seja tão importante fotografar momentos especiais, escrever um diário de gratidão, guardar cartas, registrar viagens, celebrar pequenas vitórias ou simplesmente dedicar alguns minutos para recordar um dia feliz.

Não fazemos isso apenas para lembrar do passado.

Fazemos para proteger o nosso futuro.

Porque as memórias que alimentamos hoje serão os recursos emocionais aos quais recorreremos quando a vida ficar difícil.

E talvez uma das formas mais simples de cuidar da saúde mental seja justamente esta:

Construir, todos os dias, lembranças que um dia servirão de abrigo para nós mesmos.

Um exercício simples

Antes de dormir, faça uma pergunta:

“Qual foi o melhor momento do meu dia?”

Feche os olhos por alguns segundos.

Reviva essa cena.

Lembre-se do que viu, ouviu e sentiu.

Esse pequeno hábito ajuda seu cérebro a registrar experiências positivas com mais intensidade, criando um repertório emocional que poderá ser acessado nos momentos de ansiedade, medo ou insegurança.

Porque uma boa vida não é construída apenas pelas grandes conquistas.

Ela também é construída pelas memórias que decidimos guardar.