Márcia Lasmar
Mente e Emoções

Depressão: o silêncio que está matando os homens

 

Quatro em cada cinco pessoas que morrem por suicídio no Brasil são homens. Muitos deles nunca receberam um diagnóstico de depressão. Outros até perceberam que algo estava errado, mas passaram anos repetindo a frase que aprenderam desde crianças: “homem não chora”, “homem aguenta”, “homem resolve sozinho”. O problema é que a depressão não desaparece quando é ignorada. Ela apenas aprende a se esconder. E, quando ninguém percebe os sinais, o silêncio pode custar uma vida.

Muitos homens não dizem que estão sofrendo. Eles apenas desaparecem aos poucos.

Ele continua indo ao trabalho.

Continua pagando as contas.

Continua sorrindo quando alguém faz uma piada.

Mas, por dentro, já desistiu de viver.

A depressão raramente chega fazendo barulho. Na maioria das vezes, ela chega em silêncio.

E esse silêncio pode ser fatal.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 280 milhões de pessoas vivem com depressão no mundo. O problema é que muitos homens sequer recebem diagnóstico, porque aprenderam desde pequenos que sentir tristeza é sinal de fraqueza.

Eles não choram.

Não pedem ajuda.

Não dizem que estão cansados.

Eles simplesmente vão carregando tudo… até não conseguirem mais.

No Brasil, aproximadamente 80% das mortes por suicídio acontecem entre homens, embora as mulheres tentem o suicídio com maior frequência. A diferença está justamente na dificuldade masculina de buscar ajuda e na escolha de métodos mais letais.

A maioria dessas mortes poderia ser evitada.

Não porque a vida fosse perfeita.

Mas porque a depressão tem tratamento.


A depressão nem sempre parece tristeza

Existe uma imagem equivocada de que a pessoa deprimida fica apenas chorando na cama.

Nem sempre.

Especialmente nos homens, a depressão pode aparecer de outras formas.

Ela pode se manifestar como:

  • irritabilidade constante;
  • explosões de raiva;
  • isolamento;
  • excesso de trabalho;
  • abuso de álcool ou outras drogas;
  • perda do interesse por hobbies;
  • falta de energia;
  • insônia ou sono excessivo;
  • dores físicas sem explicação;
  • sensação permanente de fracasso;
  • perda da esperança no futuro.

Muitas vezes, a família pensa:

“Ele só está estressado.”

Mas o problema pode ser muito maior.


Os sinais de alerta

Alguns comportamentos merecem atenção imediata:

  • afastar-se das pessoas que ama;
  • dizer que está cansado de viver;
  • sentir que é um peso para a família;
  • colocar assuntos pessoais em ordem repentinamente;
  • distribuir bens importantes;
  • perder completamente o interesse pela vida;
  • mudanças bruscas de comportamento;
  • abuso crescente de álcool;
  • frases como:
    • “Vocês ficariam melhor sem mim.”
    • “Nada mais faz sentido.”
    • “Logo tudo isso acaba.”

Essas frases nunca devem ser ignoradas.


Como a família pode ajudar?

A família não cura a depressão.

Mas pode salvar uma vida.

Algumas atitudes fazem enorme diferença.

1. Escute mais do que fale.

Nem toda dor precisa de uma solução imediata.

Às vezes, a pessoa só precisa sentir que alguém permaneceu ao lado dela.


2. Não minimize o sofrimento.

Evite frases como:

  • “Isso é falta de Deus.”
  • “Você precisa reagir.”
  • “Tem gente pior.”
  • “Você tem tudo.”

Quem está deprimido normalmente já se culpa por não conseguir melhorar.


3. Faça perguntas.

Pergunte:

“Como você realmente está?”

“Tem sido difícil levantar da cama?”

“Você tem pensado em desistir?”

Perguntar sobre suicídio não incentiva alguém a tirar a própria vida. Pelo contrário: pode abrir espaço para que a pessoa fale sobre uma dor que estava escondendo.


4. Ajude a procurar tratamento.

Depressão é uma doença.

Assim como uma pneumonia precisa de um médico, a depressão também precisa.

Psicoterapia e acompanhamento psiquiátrico salvam vidas.


5. Continue presente.

Mesmo quando a pessoa rejeita ajuda.

Mesmo quando responde pouco.

Mesmo quando parece distante.

A presença constante comunica algo poderoso:

“Você não está sozinho.”


Pedir ajuda é um ato de coragem

Durante muitos anos, ensinamos aos homens que força era suportar tudo calado.

Mas a verdadeira força talvez seja justamente admitir:

“Eu não estou conseguindo sozinho.”

Não existe vergonha em procurar um psicólogo.

Não existe vergonha em consultar um psiquiatra.

Não existe vergonha em tomar medicação quando ela é necessária.

Vergonha seria perder uma vida que ainda poderia florescer.


A vida pode voltar a fazer sentido

A depressão convence a pessoa de que nada vai melhorar.

Mas ela mente.

Todos os dias, milhares de pessoas voltam a sorrir depois de receber tratamento adequado.

Elas reencontram a família.

O prazer de viver.

Os sonhos.

A esperança.

Talvez hoje você conheça alguém que esteja vivendo exatamente essa batalha.

Não espere que essa pessoa peça ajuda.

Às vezes, quem mais precisa de um abraço é justamente quem aprendeu a esconder a própria dor.

Porque, no fim das contas, ninguém deveria enfrentar a escuridão sozinho.

Peça ajuda, ligue 188, número do Centro de Valorização da Vida, eles tem estratégias para ajudar quem está com depressão e pensamentos suicidas.