Márcia Lasmar
Mente e Emoções

Seja gentil com você: por que nos tratamos pior do que tratamos os outros?

Se uma pessoa que você ama cometesse um erro, provavelmente você não diria que ela é um fracasso.

Se estivesse cansada, talvez dissesse para descansar.

Se estivesse passando por um momento difícil, lembraria que aquilo iria passar.

Se tentasse alguma coisa e não conseguisse, provavelmente diria: “Tudo bem. Você fez o que podia.”

Curiosamente, quando somos nós que erramos, a conversa costuma ser bem diferente.

“Como pude fazer isso?”

“Eu deveria ter percebido.”

“Eu nunca consigo.”

“Preciso dar conta.”

Somos capazes de oferecer compreensão aos outros e, ao mesmo tempo, manter dentro da própria cabeça um crítico trabalhando em tempo integral.

Talvez esteja na hora de rever essa relação.

A maneira como falamos conosco importa

Existe uma diferença entre reconhecer um erro e transformar o erro em identidade.

“Eu errei” descreve uma situação.

“Eu sou um fracasso” condena uma pessoa inteira.

Ainda assim, fazemos essa troca com enorme facilidade.

Quando um amigo fracassa em alguma coisa, conseguimos enxergar o contexto: ele estava cansado, estava aprendendo, tomou uma decisão ruim ou simplesmente teve um dia difícil.

Quando acontece conosco, frequentemente ignoramos todas essas circunstâncias e partimos para o julgamento.

Essa voz interior repetida diariamente influencia a maneira como percebemos nossas capacidades, nossos erros e até aquilo que acreditamos merecer.

Por isso, cuidar da saúde emocional também envolve prestar atenção à forma como conversamos conosco.

Autocompaixão não significa passar a mão na própria cabeça

A pesquisadora Kristin Neff, uma das principais referências no estudo da autocompaixão, descreve o conceito a partir de três elementos: gentileza consigo mesmo, reconhecimento de que dificuldades fazem parte da experiência humana e capacidade de observar pensamentos e emoções sem ser completamente dominado por eles.

Em outras palavras, autocompaixão não significa dizer que tudo está certo.

Significa não precisar se destruir para reconhecer que alguma coisa deu errado.

Você pode admitir:

“Eu errei e preciso corrigir.”

Sem acrescentar:

“Eu sou péssima.”

Pode reconhecer:

“Eu poderia ter feito melhor.”

Sem concluir:

“Eu nunca faço nada direito.”

Existe responsabilidade nas duas primeiras frases.

Nas outras, existe punição.

E punição não é necessariamente uma boa professora.

Por que somos tão duros conosco?

Parte dessa cobrança nasce de uma ideia bastante difundida: acreditamos que ser exigente conosco nos fará melhores.

Então nos pressionamos.

Criticamos.

Comparamos.

Exigimos perfeição.

Como se uma voz severa dentro da cabeça fosse indispensável para continuarmos avançando.

No entanto, existe outra possibilidade: melhorar porque nos respeitamos, e não porque nos desprezamos.

Pense em uma criança aprendendo a andar.

Ela cai inúmeras vezes.

Ninguém olha para aquele bebê e diz:

“Você caiu novamente? Definitivamente não nasceu para isso.”

Nós o incentivamos a levantar.

Talvez adultos também precisem aprender dessa maneira.

Fale com você como falaria com alguém que ama

Existe um exercício simples para perceber o tamanho da nossa autocrítica.

Na próxima vez que cometer um erro, observe o que você diz mentalmente.

Depois faça uma pergunta:

Eu falaria dessa maneira com alguém que amo?

Se a resposta for não, talvez você também não mereça ouvir isso.

Isso não significa abandonar a disciplina, os objetivos ou a responsabilidade. Pelo contrário. Podemos dizer a verdade sem crueldade.

“Você precisa organizar isso.”

“Essa escolha não foi boa.”

“Vamos tentar novamente.”

“Hoje não deu certo.”

“Você precisa descansar.”

Existe firmeza nessas frases.

Mas também existe respeito.

Você não precisa merecer descanso

Outro sinal da maneira como nos tratamos aparece na relação com o descanso.

Muitas pessoas acreditam que precisam terminar tudo antes de parar.

O problema é que tudo nunca termina.

Sempre existe uma mensagem para responder, alguma coisa para organizar, uma meta para alcançar ou um problema para resolver.

Consequentemente, o descanso se transforma em prêmio.

Só posso descansar quando produzir o suficiente.

Só posso desacelerar quando resolver tudo.

Só posso cuidar de mim depois de cuidar de todos.

Talvez seja necessário lembrar de algo mais simples: seres humanos precisam descansar porque são seres humanos.

Não porque terminaram a lista.

Nem todo dia precisa ser extraordinário

Também precisamos aceitar que haverá dias em que seremos menos produtivos, menos pacientes e menos animados.

Dias comuns.

Dias difíceis.

Dias em que alguma coisa dará errado.

Uma boa vida não exige uma versão extraordinária de nós mesmos todos os dias.

Exige apenas que continuemos.

Às vezes avançando.

Às vezes descansando.

Às vezes recomeçando.

E, principalmente, sem transformar cada tropeço em uma sentença sobre quem somos.

Experimente mudar uma frase

Da próxima vez que pensar:

“Eu deveria estar melhor.”

Experimente:

“Estou fazendo o melhor que consigo com os recursos que tenho hoje.”

Quando pensar:

“Eu estraguei tudo.”

Talvez seja mais verdadeiro dizer:

“Eu errei. O que posso fazer agora?”

E quando a vida estiver especialmente difícil, imagine por alguns segundos que quem estivesse vivendo exatamente aquela situação fosse alguém que você ama.

O que você diria?

Talvez oferecesse paciência.

Talvez compreensão.

Talvez dissesse para essa pessoa não desistir de si mesma.

Então existe uma última pergunta:

Por que você deveria receber menos gentileza do que oferece a todo mundo?

Ser gentil consigo não significa desistir de melhorar.

Significa escolher não se maltratar enquanto melhora.

E talvez uma vida com mais sentido também comece assim: fazendo da nossa própria mente um lugar um pouco mais gentil para viver.